As Cicatrizes da Neve

“Eu descobri tarde demais que algumas pessoas não deixam marcas na pele; deixam marcas nas partes de nós que ninguém consegue enxergar.”

Meu nome é Yoon Ha-rin.

Durante vinte e oito anos, acreditei que conhecia minha própria história.

Eu estava errada.

Minha vida sempre pareceu tranquila para quem olhava de fora.

Trabalhava em uma pequena galeria de arte em Seul, morava sozinha em um apartamento antigo e tinha uma rotina simples demais para render qualquer história interessante.

Eu gostava disso.

Depois de algumas decepções, aprendi que uma vida silenciosa podia ser mais confortável do que uma vida cheia de sentimentos.

Até aquela noite.

Era dezembro.

A neve caía lentamente sobre Seul quando recebi uma ligação da minha tia.

— Ha-rin, você precisa voltar para a cidade onde nasceu.

Fiquei em silêncio.

— Por quê?

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Porque encontrei uma coisa que pertence a você.

— O quê?

— Uma fotografia.

Meu coração acelerou.

— Que fotografia?

Minha tia respirou fundo.

— Uma fotografia sua com alguém que você não deveria lembrar.


Eu nasci em uma pequena cidade cercada por montanhas.

Minha mãe havia saído de lá quando eu tinha seis anos e nunca mais voltara.

Durante toda a minha infância, ela evitou falar sobre aquele lugar.

Quando perguntava sobre meu pai, ela mudava de assunto.

Quando perguntava sobre minha infância, dizia apenas:

— Você era muito pequena para lembrar.

Eu acreditava nela.

Até aquela fotografia aparecer.

Viajei no dia seguinte.

Quando cheguei, a neve cobria as ruas.

A cidade parecia congelada no tempo.

Casas antigas.

Lojas pequenas.

Uma estação quase vazia.

E uma árvore enorme perto da praça central.

Minha tia estava esperando por mim.

Assim que me viu, abraçou-me.

Depois colocou um envelope sobre a mesa.

— Estava guardado há vinte e dois anos.

Abri.

A fotografia caiu sobre minhas mãos.

Era eu.

Devia ter uns cinco anos.

Estava usando um vestido vermelho.

Ao meu lado havia um menino.

Ele segurava minha mão.

Atrás de nós havia uma casa branca.

No verso da fotografia havia uma frase:

“Prometemos que um dia voltaríamos juntos.”

Franzi a testa.

— Quem é ele?

Minha tia ficou pálida.

— Você realmente não se lembra?

— Não.

Ela olhou para a fotografia.

— O nome dele é Kang Ji-ho.

Aquele nome não significava nada para mim.

Pelo menos era o que eu pensava.

Até ouvir alguém bater na porta.

Minha tia não se mexeu.

— Quem é?

Nenhuma resposta.

A batida veio novamente.

Dessa vez, três vezes.

Minha tia sussurrou:

— Não abra.

Olhei para ela.

— Por quê?

Ela apertou minha mão.

— Porque ele voltou.


Naquela noite, fiquei acordada.

Às duas da manhã, ouvi passos na neve do lado de fora.

Levantei-me.

Fui até a janela.

E vi um homem parado do outro lado da rua.

Casaco preto.

Cabelos escuros.

Mãos nos bolsos.

Ele estava olhando diretamente para a minha janela.

Mesmo à distância, senti alguma coisa estranha.

Como se já conhecesse aquele olhar.

No dia seguinte, descobri que ele estava hospedado na antiga pousada da cidade.

Kang Ji-ho.

Vinte e nove anos.

Arquiteto.

Reservado.

Educado.

E extremamente difícil de entender.

Quando finalmente nos encontramos, ele não pareceu surpreso.

Apenas me observou.

— Você não se lembra de mim.

Não era uma pergunta.

— Deveria?

Ele sorriu de maneira triste.

— Talvez seja melhor assim.

Fiquei incomodada.

— Por que todos falam comigo como se eu tivesse esquecido alguma coisa?

Ji-ho desviou os olhos.

— Porque você esqueceu.

— Então me conte.

Ele voltou a olhar para mim.

— Você prometeu que nunca me esqueceria.

Meu coração apertou.

— Eu tinha cinco anos.

— Eu sei.

— Crianças fazem promessas que não conseguem cumprir.

— Algumas conseguem.


Nos dias seguintes, comecei a encontrar pequenos sinais do passado.

Uma fita azul dentro de uma caixa antiga.

Um desenho infantil.

Uma música que minha mãe costumava cantar.

E uma casa branca no alto da montanha.

A mesma casa da fotografia.

Perguntei à minha tia sobre ela.

Ela se recusou a responder.

Então fui até lá sozinha.

A casa estava abandonada.

A porta estava destrancada.

Entrei.

O lugar cheirava a madeira antiga e inverno.

Na sala havia um piano.

Sobre ele, uma pequena caixa musical.

Quando abri, uma melodia começou a tocar.

Eu conhecia aquela música.

Não sabia de onde.

Fechei os olhos.

E uma lembrança surgiu.

Eu corria pela neve.

Ji-ho estava atrás de mim.

Éramos crianças.

Ele segurava uma pequena fita azul.

— Ha-rin!

Eu me virei.

— O quê?

Ele sorria.

— Quando crescermos, vamos voltar para cá.

— Promete?

— Prometo.

A lembrança desapareceu.

Abri os olhos.

Estava chorando.

— Você lembrou.

A voz veio atrás de mim.

Era Ji-ho.

Virei rapidamente.

— Você sabia que eu viria?

— Sabia.

— Como?

Ele ficou em silêncio.

— Porque eu conheço você.

— Você não pode dizer isso.

— Por quê?

— Porque eu não conheço você.

Ele se aproximou lentamente.

— Esse é o problema.

Fiquei olhando para ele.

— Qual problema?

— Você não se lembra de quem éramos.


Naquela noite, Ji-ho finalmente me contou parte da verdade.

Quando éramos crianças, nossas famílias eram muito próximas.

Passávamos todos os dias juntos.

Até minha mãe decidir deixar a cidade.

Mas havia algo que eu não sabia.

Antes de partir, minha mãe havia prometido que eu voltaria quando fosse adulta.

Ela nunca cumpriu.

Ji-ho esperou.

Durante anos.

— Você realmente esperou por mim? — perguntei.

Ele sorriu.

— No começo, sim.

— E depois?

Ele olhou para a neve pela janela.

— Depois eu tentei esquecer.

— Conseguiu?

Ele demorou a responder.

— Não.

Aquela resposta me atingiu de uma maneira inesperada.


Na manhã seguinte, encontrei minha tia chorando na cozinha.

Sobre a mesa havia outra fotografia.

Dessa vez, minha mãe aparecia nela.

Ao lado dela estava a mãe de Ji-ho.

As duas seguravam um envelope.

No verso havia uma data.

E uma frase:

“Quando Ha-rin descobrir, entregue a ela.”

— O que significa isso?

Minha tia não respondeu.

Abri o envelope.

Dentro havia uma carta da minha mãe.

As primeiras palavras fizeram minhas mãos tremerem.

"Minha querida Ha-rin, se você está lendo isto, significa que finalmente voltou."

Continuei.

"Passei muitos anos tentando proteger você de uma lembrança que acreditava ser dolorosa demais."

Parei.

Respirei fundo.

Continuei lendo.

"Mas talvez eu tenha cometido um erro."

A carta explicava que, naquela época, minha família estava prestes a se mudar definitivamente para Seul.

Eu havia ficado inconformada.

Não queria deixar Ji-ho.

Então, na última noite, nós fizemos uma promessa.

Eu voltaria.

Ele esperaria.

Mas havia uma parte que minha mãe nunca contou.

Eu havia pedido para ela guardar a fotografia porque queria voltar um dia e entregar a Ji-ho.

E ela havia prometido.

Por algum motivo, nunca entregou.

Fechei os olhos.

A tristeza que senti não era apenas minha.

Era como se eu estivesse sentindo também a tristeza daquela menina de cinco anos.

A menina que acreditou que algumas promessas duravam para sempre.


Quando encontrei Ji-ho novamente, ele estava na estação.

A neve caía sobre seus cabelos.

— Você sabia de tudo? — perguntei.

— Não.

— Então por que voltou?

Ele me olhou.

— Porque recebi uma carta.

— De quem?

— Da sua mãe.

Fiquei imóvel.

— Quando?

— Há alguns meses.

Meu coração acelerou.

— Ela sabia que você viria?

— Sabia.

— O que ela escreveu?

Ji-ho tirou uma pequena folha do bolso.

Entregou-me.

Havia apenas uma frase:

“Se um dia Ha-rin voltar, não faça com que ela escolha entre o passado e o presente.”

Levantei os olhos.

— O que isso significa?

Ji-ho sorriu.

— Significa que desta vez a escolha é sua.

Olhei para a estação.

Depois para ele.

Pela primeira vez, percebi que talvez minha história não fosse sobre recuperar o passado.

Talvez fosse sobre decidir o que fazer com ele.

Aproximei-me.

— Ji-ho.

— Sim?

— Você ainda acredita em promessas?

Ele ficou em silêncio.

Então respondeu:

— Só nas que são feitas por pessoas que têm coragem de ficar.

Segurei a fotografia entre os dedos.

A neve continuava caindo.

E naquele instante entendi que algumas histórias não terminam quando duas pessoas se separam.

Elas apenas ficam esperando.

Esperando o inverno certo.

A cidade certa.

E, principalmente, o momento em que duas pessoas finalmente tenham coragem de se reconhecer novamente.

Porque às vezes o passado não volta para nos prender.

Ele volta para descobrir se finalmente aprendemos a deixá-lo ir.

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