ELA NÃO DEVIA TER LEMBRADO
Ela não sabia que aquela simples ida ao supermercado mudaria tudo!! Aos poucos, ela descobriria que sua vida inteira era uma farsa — e que alguém havia apagado sua memória para esconder um segredo que jamais deveria ser descoberto.
Tudo começou em uma manhã completamente comum.
Clara acordou cedo, como fazia todos os dias.
Preparou café, arrumou a casa e colocou a roupa para trabalhar.
Sua vida era simples.
Ela morava em um pequeno apartamento, trabalhava em uma loja de roupas e tinha um namorado chamado André.
Nada de extraordinário.
Nenhum grande problema.
Nenhum grande segredo.
Pelo menos era isso que Clara acreditava.
Naquela manhã, porém, enquanto procurava sua carteira dentro de uma gaveta antiga, encontrou uma fotografia.
Ela nunca tinha visto aquela fotografia antes.
Era uma imagem de uma menina pequena sentada em um jardim.
Clara aproximou a foto do rosto.
A menina parecia ter uns seis anos.
E tinha exatamente a mesma pequena marca acima da sobrancelha que Clara possuía.
No verso havia apenas uma frase:
“Não deixe Clara se lembrar.”
Ela sentiu um arrepio.
Virou a fotografia novamente.
Olhou para a menina.
Depois para si mesma.
Não fazia sentido.
Clara não tinha irmãos.
Sua mãe havia morrido quando ela era adolescente e, segundo tudo que sabia, seu pai havia desaparecido antes mesmo de ela completar cinco anos.
Ela nunca tinha conhecido aquela menina.
Ou pelo menos era o que acreditava.
Guardou a fotografia na bolsa e decidiu não contar a ninguém.
Principalmente a André.
Naquela noite, porém, algo ainda mais estranho aconteceu.
Enquanto jantavam, André perguntou:
— Você está bem?
Clara hesitou.
— Encontrei uma fotografia antiga.
O rosto dele mudou imediatamente.
Foi apenas por alguns segundos.
Mas Clara percebeu.
— Que fotografia?
— De uma menina.
André ficou em silêncio.
— Onde você encontrou?
Clara começou a desconfiar.
— Por que você está perguntando desse jeito?
Ele tentou sorrir.
— Não estou perguntando de jeito nenhum.
Mas Clara percebeu que estava nervoso.
Naquela noite, quando André dormiu, ela pegou a fotografia novamente.
E percebeu uma coisa que não havia notado antes.
No fundo da imagem havia uma casa.
Uma casa enorme.
Clara aproximou a fotografia da luz.
Na varanda havia três pessoas.
Uma mulher.
Um homem.
E uma criança.
Ela reconheceu a mulher.
Era sua mãe.
Clara sentiu o coração acelerar.
Mas havia algo impossível.
Sua mãe estava sorrindo ao lado de um homem que Clara nunca tinha visto.
E aquele homem segurava a menina da fotografia no colo.
Clara virou a foto.
A frase continuava ali.
“Não deixe Clara se lembrar.”
Na manhã seguinte, Clara decidiu procurar informações sobre sua infância.
Foi até a antiga escola onde acreditava ter estudado.
Mas quando apresentou seu nome, a secretária franziu a testa.
— Você tem certeza de que estudou aqui?
— Tenho.
A mulher pesquisou no computador.
Depois ficou em silêncio.
— Não existe nenhum registro seu.
Clara sentiu o coração disparar.
— Como assim?
— Não há matrícula, histórico, nada.
— Isso é impossível.
A secretária olhou para ela.
— Você nasceu em que cidade?
Clara respondeu.
A mulher digitou novamente.
E então disse:
— Também não existe registro de nascimento com esse nome naquela cidade.
Clara saiu dali completamente desnorteada.
Durante o caminho de volta, tentou ligar para a mãe.
Mas lembrou que ela havia morrido havia anos.
Então começou a pensar em todas as lembranças de sua infância.
A primeira escola.
A primeira casa.
O aniversário de dez anos.
As férias.
Os amigos.
Tudo parecia real.
Mas, pela primeira vez, Clara percebeu uma coisa assustadora.
Ela não conseguia lembrar de nenhum rosto.
Sabia das histórias.
Sabia dos lugares.
Sabia dos acontecimentos.
Mas quando tentava visualizar alguém, tudo ficava borrado.
Como uma fotografia apagada.
Naquela noite, Clara encontrou André esperando por ela no apartamento.
Ele estava sentado no sofá.
E havia algo diferente em seu rosto.
— Você foi procurar seus registros.
Clara parou.
— Como você sabe?
André não respondeu.
— Quem é você?
Ele abaixou a cabeça.
— Clara, você precisa confiar em mim.
— Eu não confio mais em você.
Ela pegou a bolsa.
— Quero saber quem eu sou.
André se levantou.
— Você não está preparada.
— Preparada para quê?
Ele ficou em silêncio.
Clara começou a chorar.
— Minha vida inteira está desaparecendo diante dos meus olhos!
Então André disse algo que fez o sangue dela gelar:
— Porque essa vida nunca foi sua.
Clara ficou imóvel.
— O que você quer dizer?
André tirou um envelope do bolso.
Colocou sobre a mesa.
— Isso foi deixado para você.
Ela abriu.
Dentro havia várias fotografias.
Clara criança.
Clara adolescente.
Clara adulta.
Mas havia algo estranho.
Em todas as fotografias, a pessoa que aparecia ao lado dela havia sido cuidadosamente cortada.
Ela pegou uma das imagens.
No verso estava escrito:
“Se ela recuperar a memória, todos estarão em perigo.”
Clara olhou para André.
— Quem fez isso comigo?
Ele respirou fundo.
— Seu pai.
Ela ficou em silêncio.
— Meu pai está morto.
André balançou a cabeça.
— Não.
Clara sentiu o chão desaparecer.
— Ele está vivo?
— Está.
— Onde?
André não respondeu.
Clara se aproximou.
— Onde está meu pai?
Ele finalmente levantou os olhos.
— No lugar onde tudo começou.
Clara sentiu uma dor de cabeça repentina.
A sala começou a girar.
Então uma imagem surgiu em sua mente.
Uma casa.
Um corredor.
Uma porta vermelha.
Uma menina chorando.
E uma voz masculina dizendo:
— Clara, você precisa esquecer.
Ela caiu de joelhos.
As lembranças começaram a voltar em pequenos flashes.
Uma discussão.
Um homem.
Uma mulher gritando.
Uma caixa preta.
Um acidente.
E uma porta sendo trancada.
Clara levou as mãos à cabeça.
— Eu lembro...
André se ajoelhou diante dela.
— O que você lembra?
Ela levantou lentamente os olhos.
Estava chorando.
— Eu não morava sozinha naquela casa.
André ficou pálido.
— O que você viu?
Clara respondeu:
— Havia outra criança.
— Que criança?
Ela fechou os olhos.
E então lembrou.
A menina da fotografia.
A mesma menina que aparecia em todas aquelas imagens.
A mesma menina cuja existência ninguém jamais mencionou.
Clara abriu os olhos.
— Era minha irmã.
André ficou completamente imóvel.
Clara começou a chorar.
— E eu sei por que apagaram minha memória.
— Por quê?
Ela olhou para ele.
— Porque eu vi o que aconteceu com ela.
E, naquele instante, Clara percebeu que o verdadeiro segredo não estava escondido em seu passado.
Estava escondido em sua própria memória.
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