O Eco do Inverno
O Eco do Inverno
“Algumas pessoas não entram na nossa vida para nos salvar; entram para nos ensinar por que nunca devemos confiar na luz.”
Eu sempre achei que o inverno escondia coisas que as pessoas não tinham coragem de dizer.
Talvez fosse por isso que eu gostava tanto dele.
O frio fazia as ruas parecerem mais honestas. As pessoas caminhavam depressa, escondidas atrás de casacos e cachecóis, enquanto as luzes dos prédios permaneciam acesas até tarde, como pequenos segredos suspensos na escuridão.
Cinco anos haviam se passado desde a última vez que estive em Seul.
Cinco anos desde que prometi a mim mesma nunca mais voltar.
E, naquela noite, enquanto o táxi atravessava a cidade coberta por uma fina camada de neve, eu me perguntava por que algumas promessas são tão fáceis de quebrar quando somos nós mesmos que as fazemos.
Eu observava a janela em silêncio.
As ruas continuavam movimentadas. Cafés ainda estavam abertos. Casais caminhavam lado a lado. Pessoas riam diante das vitrines.
Tudo parecia normal.
Mas eu sabia que não era.
Porque, em algum lugar daquela cidade, existia uma pessoa que eu havia passado cinco anos tentando esquecer.
Han Seo-jun.
O homem que um dia foi meu melhor amigo.
Meu primeiro amor.
E a pessoa que desapareceu da minha vida sem uma explicação.
Quando o táxi parou diante do antigo edifício onde minha mãe havia deixado o apartamento para mim, permaneci alguns segundos sem abrir a porta.
Olhei para o prédio.
Nada havia mudado.
Até mesmo a pequena árvore perto da entrada continuava ali.
Era estranho voltar para um lugar que parecia ter esperado por mim.
Paguei a corrida, peguei minha mala e entrei.
O elevador continuava fazendo aquele mesmo barulho antigo.
Subi até o sexto andar.
E então parei.
Meu apartamento ficava no fim do corredor.
Mas, antes que eu pudesse procurar as chaves na bolsa, ouvi uma porta se abrir atrás de mim.
Meu coração parou por um instante.
Não precisei olhar para saber quem era.
— Você voltou.
A voz dele.
Baixa.
Calma.
Exatamente como eu lembrava.
Virei lentamente.
Seo-jun estava parado diante da porta do apartamento ao lado.
Ele parecia diferente.
O cabelo estava mais curto. O rosto parecia mais sério. Havia uma espécie de cansaço em seus olhos que não existia cinco anos antes.
Mas ainda era ele.
A mesma pessoa que eu havia jurado esquecer.
— Você ainda mora aqui? — perguntei.
Ele fez um pequeno movimento com a cabeça.
— Moro.
— Eu não sabia.
— Eu imaginei.
Não gostei daquela resposta.
— Como assim?
Ele olhou para minha mala.
Depois para mim.
— Você não perguntou.
Fiquei sem resposta.
Durante alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
Era como se cinco anos de silêncio estivessem ocupando o corredor entre nós.
Então ele falou:
— Você veio para ficar?
— Não sei.
— Essa foi sempre a sua resposta.
Eu franzi a testa.
— Você não mudou.
Seo-jun sorriu de maneira quase imperceptível.
— Mudei mais do que você imagina.
Ele entrou no apartamento.
A porta se fechou.
E eu permaneci ali, olhando para ela.
Naquela noite, não consegui dormir.
O apartamento ainda tinha o cheiro de madeira antiga e livros guardados.
Abri algumas caixas.
Encontrei fotografias.
Bilhetes.
Um cachecol azul.
E, dentro de uma pequena caixa de papelão, encontrei algo que eu não via desde os dezoito anos.
Uma fotografia minha e de Seo-jun.
Éramos jovens.
Estávamos sentados na frente da antiga estação de trem.
Eu sorria.
Ele olhava para mim.
No verso da fotografia havia uma frase escrita à mão:
“Quando você voltar, eu estarei esperando.”
Meu peito apertou.
Eu não lembrava daquela frase.
Ou talvez tivesse passado anos tentando esquecer.
Coloquei a fotografia sobre a mesa.
Naquele momento, ouvi três batidas na porta.
Meu corpo ficou imóvel.
Abri.
Não havia ninguém.
Apenas um pequeno envelope branco no chão.
Sem nome.
Sem endereço.
Peguei o envelope.
Dentro havia um pedaço de papel.
"Você ainda se lembra daquela primavera?"
Fiquei olhando para aquelas palavras durante vários minutos.
Então ouvi passos no corredor.
Saí rapidamente.
Seo-jun estava perto do elevador.
— Foi você?
Ele olhou para o papel na minha mão.
Seu rosto mudou.
Pela primeira vez naquela noite, ele pareceu realmente assustado.
— Onde encontrou isso?
— Na minha porta.
Ele se aproximou.
Pegou o papel.
Leu.
Depois devolveu.
— Jogue fora.
— Por quê?
— Porque algumas coisas deveriam continuar esquecidas.
— Você sabe quem deixou isso?
Ele não respondeu.
— Seo-jun.
Ele fechou os olhos por alguns segundos.
— Eu disse para jogar fora.
— E eu perguntei quem deixou.
Ele me encarou.
— Você não quer saber.
— Isso não cabe a você decidir.
Ele ficou em silêncio.
Então disse:
— Você sempre foi curiosa demais.
— E você sempre escondeu demais.
A expressão dele mudou.
Por um instante, achei que ele fosse responder.
Mas simplesmente entrou no elevador.
Antes que as portas se fechassem, olhou para mim.
— Não vá à estação.
As portas se fecharam.
E foi justamente naquele momento que eu soube que iria.
Na manhã seguinte, acordei com uma sensação estranha.
Como se alguém estivesse observando o prédio.
Fui até a janela.
Na rua, havia uma mulher parada em frente à cafeteria.
Ela usava um casaco bege e segurava um guarda-chuva preto.
Quando nossos olhos se encontraram, ela virou o rosto.
Desapareceu entre as pessoas.
Passei o dia tentando esquecer aquilo.
Não consegui.
À tarde, saí para caminhar.
A cidade parecia menor do que eu lembrava.
Passei pela escola onde estudei.
Pela livraria onde Seo-jun costumava me esperar.
Pela pequena cafeteria onde passávamos horas conversando.
Tudo estava diferente.
Mas, de alguma forma, tudo ainda carregava nossas lembranças.
Foi então que percebi algo.
Aquela cidade não havia me esquecido.
Eu é que havia tentado esquecê-la.
Quando anoiteceu, fui até a estação.
A antiga estação de trem ficava praticamente vazia naquele horário.
O lugar havia sido parcialmente reformado, mas a plataforma antiga permanecia intacta.
Caminhei até o banco onde costumávamos sentar.
Sentei.
Fechei os olhos.
E a lembrança voltou.
Cinco anos antes.
Eu estava chorando.
Seo-jun segurava minha mão.
— Eu preciso ir.
— Por quanto tempo?
— Não sei.
— Então me promete que vai voltar.
Ele havia apertado minha mão.
— Eu prometo.
Abri os olhos.
A plataforma estava vazia.
Mas havia algo sobre o banco ao meu lado.
Uma pequena caixa.
Meu coração acelerou.
Peguei.
Dentro havia outra fotografia.
Dessa vez, eu e Seo-jun aparecíamos na frente da escola.
No verso:
"Você fez uma promessa também."
Eu não lembrava.
Foi quando ouvi uma voz atrás de mim.
— Você realmente veio.
Levantei-me.
Era a mulher do casaco bege.
Ela parecia ter aproximadamente a minha idade.
— Quem é você?
Ela permaneceu em silêncio.
Depois perguntou:
— Você realmente não se lembra?
— Lembrar de quê?
Ela me observou durante alguns segundos.
— Da noite em que Seo-jun desapareceu.
Meu coração começou a bater mais forte.
— O que você sabe?
Ela deu um passo para trás.
— Mais do que deveria.
— Então me conte.
— Não aqui.
— Onde?
Ela olhou para o relógio da estação.
— Amanhã.
— Onde?
Ela tirou um papel do bolso.
Escreveu um endereço.
Antes de me entregar, disse:
— Se você realmente quer descobrir a verdade, não conte a Seo-jun que me encontrou.
Peguei o papel.
— Por quê?
Ela sorriu tristemente.
— Porque ele passou cinco anos tentando impedir que você lembrasse.
E foi embora.
Naquela noite, voltei para casa inquieta.
Quando abri a porta do apartamento, percebi imediatamente que alguma coisa estava diferente.
A fotografia que eu havia deixado sobre a mesa não estava mais ali.
Procurei em todos os lugares.
Nada.
Então ouvi uma voz atrás de mim.
— Você foi à estação.
Virei.
Seo-jun estava parado no corredor.
— Como você sabe?
— Eu sei.
— Você está me seguindo?
— Não.
— Então como sabia?
Ele permaneceu em silêncio.
Aproximei-me.
— Quem é aquela mulher?
Seo-jun ficou pálido.
— Você falou com ela?
— Sim.
Ele desviou o olhar.
— Não faça isso.
— Fazer o quê?
— Tentar recuperar o passado.
— Por que você tem tanto medo dele?
Ele respirou profundamente.
— Porque algumas lembranças não voltam sozinhas.
— O que isso significa?
Ele me encarou.
— Significa que talvez você não tenha esquecido.
— Talvez eu tenha sido impedida de lembrar.
Silêncio.
Foi a primeira vez que vi Seo-jun sem nenhuma resposta.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Você precisa confiar em mim.
Eu ri, mas não havia humor algum naquele riso.
— Confiar em você?
— Sim.
— Você desapareceu.
— Eu sei.
— Nunca explicou nada.
— Eu sei.
— E agora quer que eu simplesmente confie em você?
Ele abaixou a cabeça.
— Não.
Olhei para ele.
— Então o que você quer?
Seo-jun levantou os olhos.
— Quero que você pare antes de descobrir algo que talvez nunca consiga esquecer novamente.
Meu coração ficou apertado.
— O que aconteceu naquela noite?
Ele não respondeu.
Apenas caminhou até a porta.
Antes de sair, disse:
— Amanhã, se alguém perguntar sobre mim, diga que você não me conhece.
A porta se fechou.
Fiquei sozinha.
Olhei para o corredor vazio.
Então percebi que havia algo escrito no espelho da entrada.
Uma frase pequena.
Quase invisível.
“Ele não foi embora por vontade própria.”
Meu sangue gelou.
Passei a mão sobre as palavras.
E, pela primeira vez em cinco anos, uma lembrança surgiu.
Uma estação.
Uma chuva forte.
Seo-jun segurando minha mão.
E uma voz desconhecida dizendo:
— Se ela lembrar, tudo muda.
Abri os olhos.
A lembrança desapareceu.
Mas uma certeza permaneceu.
Eu não tinha voltado a Seul por acaso.
Alguém havia me trazido de volta.
E, no fundo, eu já sabia que aquela história nunca tinha terminado.
Ela apenas esperava que eu tivesse coragem suficiente para lembrar do começo.

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