Quando as Luzes se Apagam

 


Quando as Luzes se Apagam

“Eu passei anos tentando esquecer o homem que partiu… até descobrir que ele era a única pessoa que nunca tinha ido embora.”

Eu tinha uma regra.

Nunca olhar para trás.

Foi assim que consegui sobreviver aos últimos sete anos.

Apaguei fotografias.

Mudei de bairro.

Troquei de emprego.

Evitei lugares que guardavam lembranças.

E, principalmente, nunca mais pronunciei o nome de Kang Tae-jun.

Até aquela noite.

A chuva caía sobre Seul quando recebi uma mensagem de um número desconhecido.

"Ele está no Hotel Haneul."

Abaixo havia apenas uma fotografia.

Meu coração parou.

Era ele.

Tae-jun.

Sete anos mais velho.

Mais sério.

Mais distante.

Mas ainda com aquele olhar que eu havia passado anos tentando esquecer.

Apaguei a mensagem.

Dois minutos depois, chegou outra.

"Você merece saber por que ele foi embora."

Fiquei olhando para a tela.

Eu não queria saber.

Pelo menos era isso que dizia a minha cabeça.

Meu coração, porém, já tinha decidido.


No dia seguinte, fui ao Hotel Haneul.

Era um dos hotéis mais luxuosos de Seul.

Eu havia sido contratada para trabalhar na organização de uma exposição de arte que aconteceria ali.

Quando entrei no salão principal, vi Tae-jun.

Ele estava de costas.

Usava um terno escuro.

Conversava com alguns empresários.

Então se virou.

Nossos olhos se encontraram.

O mundo pareceu diminuir.

Ele ficou imóvel.

Eu também.

Sete anos desapareceram naquele instante.

Tae-jun foi o primeiro a desviar o olhar.

Como se olhar para mim ainda fosse perigoso.

— Você conhece aquele homem? — perguntou minha colega.

Engoli em seco.

— Não.

Mentira.

A maior que eu já havia contado.


Naquela tarde, recebi uma nova mensagem.

"Ele ainda guarda o que você deixou para trás."

Fiquei irritada.

Respondi:

"Quem é você?"

A resposta chegou imediatamente.

"Alguém que sabe que vocês nunca terminaram de verdade."

Desliguei o celular.

Eu queria ir embora.

Mas, quando entrei no elevador, Tae-jun estava lá.

Sozinho.

As portas se fecharam.

Silêncio.

Ele olhava para frente.

— Você está bem? — perguntou.

— Estou.

— Mentira.

Virei para ele.

— Você não tem o direito de dizer isso.

Ele finalmente me encarou.

— Eu sei.

— Então por que está aqui?

— Porque este é o meu trabalho.

— Não estou falando do hotel.

Ele ficou em silêncio.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Por que você desapareceu?

As portas se abriram.

Tae-jun saiu.

Antes de desaparecer pelo corredor, disse:

— Porque você me pediu.

Fiquei paralisada.

— Eu nunca pedi isso.

Ele olhou para trás.

— Pediu.

E foi embora.


Naquela noite, procurei minhas antigas fotografias.

Eu havia guardado apenas uma.

Uma foto nossa na universidade.

Eu sorria.

Ele estava atrás de mim, fingindo não gostar da fotografia.

No verso havia uma frase:

"Se um dia eu esquecer de você, me faça lembrar."

Passei os dedos sobre a escrita.

Eu não lembrava de ter escrito aquilo.

Então encontrei uma segunda fotografia escondida dentro do álbum.

Nela, aparecíamos diante de um café.

No canto inferior havia uma data.

A mesma data em que Tae-jun havia desaparecido.

Meu coração apertou.

Alguma coisa estava errada.


No dia seguinte, procurei por ele.

Encontrei-o na cobertura do hotel.

Ele estava olhando para a cidade.

— Você mentiu para mim.

Ele não se virou.

— Eu sei.

— Eu nunca pedi para você ir embora.

Silêncio.

— Então por que disse isso?

Tae-jun respirou profundamente.

— Porque você não lembrava.

— Lembrava do quê?

Ele virou-se.

Seus olhos estavam diferentes.

— Daquela noite.

— Que noite?

Ele se aproximou.

— A noite em que você decidiu terminar comigo.

Meu coração acelerou.

— Isso nunca aconteceu.

— Aconteceu.

— Eu lembraria.

— Você era jovem.

— Não significa que eu esqueceria uma coisa dessas.

Ele tirou uma pequena caixa do bolso.

Colocou sobre a mesa.

— Então abra.

Dentro havia uma fita de cabelo.

Azul.

Eu conhecia aquela fita.

Era minha.

Mas não lembrava de tê-la deixado com ele.

— Onde conseguiu?

— Você me deu.

— Quando?

Ele me encarou.

— Naquela noite.


Comecei a pesquisar.

Datas.

Fotografias.

Mensagens antigas.

E descobri algo estranho.

Durante os meses anteriores ao desaparecimento de Tae-jun, havia dezenas de mensagens entre nós.

Mas muitas estavam apagadas.

Como se alguém tivesse removido partes da nossa história.

Foi então que encontrei um antigo e-mail.

Nunca enviado.

O destinatário era Tae-jun.

A mensagem dizia:

"Se eu disser que não quero mais você, não acredite em mim."

Fiquei olhando para aquelas palavras.

Eu não havia escrito aquilo.

Ou talvez tivesse.

Minha memória estava cheia de buracos.

E, quanto mais eu procurava, mais perguntas apareciam.


Naquela noite, fui até o apartamento de Tae-jun.

Ele abriu a porta e pareceu surpreso.

— Você não deveria estar aqui.

— Preciso saber a verdade.

Ele não respondeu.

Entrei.

Na sala havia uma parede inteira coberta por fotografias.

Fotografias minhas.

Em uma cafeteria.

Em um parque.

Na universidade.

No inverno.

No verão.

Sozinha.

Com amigos.

Rindo.

Dormindo sobre um livro.

Eu fiquei sem palavras.

— Por que você guardou tudo isso?

Tae-jun abaixou os olhos.

— Porque era a única maneira de lembrar que aquilo realmente aconteceu.

— O quê?

Ele se aproximou.

— Nós.

Meu coração doeu.

— Então por que você nunca me procurou?

— Porque prometi.

— A quem?

Ele ficou em silêncio.

— A você.


Foi quando a verdade começou a aparecer.

Sete anos antes, eu havia descoberto que minha família enfrentava sérios problemas financeiros.

Eu estava prestes a abandonar a universidade.

Tae-jun tentou me ajudar.

Eu recusei.

Tínhamos discutido.

E naquela noite eu havia dito algo que não lembrava:

"Se você realmente me ama, desapareça da minha vida."

Ele obedeceu.

Não porque queria.

Mas porque acreditou que era o que eu precisava.

O problema era que eu não me lembrava daquela conversa.

Eu havia bloqueado aquela parte da minha memória depois de uma época emocionalmente difícil.

Tae-jun nunca soube.

E eu nunca soube que ele havia ficado esperando.


— Por que voltou agora? — perguntei.

Ele olhou para mim.

— Porque recebi uma carta sua.

— Minha?

Ele pegou um envelope.

Meu nome estava escrito nele.

— Você escreveu isso há três meses.

Abri.

Minha própria letra dizia:

"Se você ainda estiver esperando, pare."

Fiquei confusa.

— Eu não escrevi isso.

— Escreveu.

— Não.

Ele me entregou outra folha.

— Então explique.

Era uma cópia de um documento que eu havia assinado.

Eu reconheci minha assinatura.

Mas não lembrava de nada.

Sentei-me.

— O que está acontecendo comigo?

Tae-jun se ajoelhou diante de mim.

— Talvez você tenha passado tantos anos tentando esquecer que começou a esquecer até mesmo o que queria lembrar.

Meus olhos se encheram de lágrimas.

— E você?

— Eu nunca consegui esquecer.


Na manhã seguinte, descobri quem estava enviando as mensagens.

Era minha antiga amiga, Min-seo.

Ela havia sido a única pessoa que sabia de toda a história.

Quando perguntei por quê, ela respondeu:

— Porque vocês estavam sofrendo por causa de uma decisão que nenhum dos dois lembrava direito.

— Você queria nos juntar novamente?

— Não.

Ela olhou para mim.

— Queria que vocês descobrissem a verdade antes de escolherem se queriam continuar separados.

Fiquei em silêncio.

Talvez fosse isso que eu precisava.

Não de um reencontro.

Não de uma segunda chance.

Mas da verdade.


Naquela noite, fui ao lugar onde tudo havia começado.

A pequena ponte sobre o rio Han.

Tae-jun já estava lá.

As luzes da cidade refletiam na água.

— Você sabia que eu viria? — perguntei.

— Não.

— Então por que está aqui?

Ele sorriu.

— Porque era onde costumávamos nos encontrar.

Fiquei ao lado dele.

Durante alguns minutos, não falamos nada.

Depois perguntei:

— Se pudéssemos voltar sete anos, você faria tudo diferente?

Ele pensou.

— Não.

Olhei para ele.

— Mesmo depois de tudo?

— Mesmo depois de tudo.

— Por quê?

Ele olhou para mim.

— Porque aquela versão de nós dois fez o que conseguiu com o que sabia.

Baixei os olhos.

Talvez ele tivesse razão.

Não podíamos mudar o passado.

Mas podíamos escolher o que fazer com ele.

— Tae-jun.

— Sim?

— Eu ainda não sei se consigo confiar em você.

Ele sorriu.

— Então não confie.

Fiquei surpresa.

— O quê?

— Não quero que você volte para mim porque sente culpa. Nem porque acha que me deve alguma coisa.

Ele estendeu a mão.

— Se um dia quiser ficar, fique porque escolheu.

Olhei para a mão dele.

Durante sete anos, achei que aquela história havia terminado.

Mas talvez o amor não tivesse desaparecido.

Talvez apenas tivesse ficado em silêncio.

Segurei sua mão.

Não como promessa.

Não como dívida.

Mas como escolha.

As luzes da cidade continuavam brilhando.

E, pela primeira vez, eu não tive medo de olhar para trás.

Porque descobri que algumas histórias não precisam voltar ao começo.

Elas só precisam de coragem para continuar.

E naquela noite, quando as luzes da cidade se apagaram uma a uma, eu finalmente entendi: algumas pessoas não voltam para a nossa vida. Elas apenas esperam até que estejamos prontos para reconhecê-las novamente.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A FILHA QUE NUNCA DEVERIA TER SIDO ENCONTRADA

O FILHO QUE MINHA IRMÃ ROUBOU